Não é um filme de fim do mundo, mas a despedida do Guga das quadras brasileiras foi o fim de muitas coisas.
Foi o fim da esperança de vê-lo brilhar novamente, foi o fim da sua inesgotável persistência, foi o fim de um ciclo que deveria ser iniciado por um outro atleta brasileiro, mas que por enquanto está vago. Bem vago.
"Não consigo mais". Foi com essa frase, que ninguém gostaria de ouvir, que Guga encerrou seu discurso após a derrota por 2 sets a 0, parciais de 7/5 e 6/1, para o argentino Carlos Berlocq. É uma pena realmente que Gustavo Kuerten tenha um fim desse, mas era o esperado.
Ninguém em sã consciência esperava uma vitória dele sobre Berlocq, mas no fundo a emoção falava mais alto e nos fazia ter uma indevida esperança, principalmente ao lembrarmos de vitórias incríveis como aquela contra Roger Federer no Aberto da França de 2004, por 3 sets a 0.
Ou que tal o jogo contra o desconhecido norte-americano Michael Russel em Roland Garros de 2001? Guga perdia por 2 seta a 0, teve um match point contra e virou a partida das oitavas-de-final para continuar em uma brilhante trajetória até o tricampeonato.
Ou então o jogo contra Max Mirnyi no US Open do mesmo ano. Novamente nas oitavas, Guga perdia por 2 sets a 0. Mirnyi estava consistente. Lembro que desisti de ver o jogo e fui dormir. Não acreditei quando no dia seguinte li na internet que Guga havia vencido o 3º e 4º sets no tie-break e faturado a vitória com um 6/2 na 5ª parcial.
No jogo seguinte Guga foi massacrado pelo russo Yevgeni Kafelnikov, mas já havia feito sua parte.
Aliás, que pena aquele ano de 2001. Vinha sendo o melhor da carreira dele. Seis títulos até a metado do ano. Um ano "Federer" para Guga. Mas as dores do quadril começaram ali mesmo e o impediram de alcançar 10, talvez 11 títulos naquela temporada.
Eu estava em frente à TV em 1997 quando ele derrotou o espanhol Sergi Brugera na final de Roland Garros. Dias após, comprei uma raquete e, junto com amigos do colégio, formamos um campeonato de tênis entre nós na casa de um deles. Tudo por causa do Guga.
Quantos e quantos outros não fizeram a mesma coisa. Até por esse motivo fica a decepção de não ver hoje nenhum fruto de uma era tão promissora para o tênis brasileiro.
Lembro-me bem de uma entrevista que fiz com Guga em um torneio exibição no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 2004. Ele sempre atendendo aos jornalistas enquanto sua chata assessora de imprensa tentava tesourar as perguntas de todo mundo.
Mas, assim como Guga não consegue mais, nós também não conseguimos mais vê-lo sofrer para tentar jogar. Apenas agradecemos e esperamos por um milagre em Roland Garros e talvez em Pequim.
Obrigado, Guga!